terça-feira, 24 de março de 2009

O continente é negro

Minha roupa, minha alma e o mar à noite.

O continente é negro
Como negra é minha roupa
E dentro de mim eu tenho a escuridão
Que não reflete
Que é densa e absorvente
Que não brilha como os cabelos de Diane
Que como o raio do sol perfura a minha retina
Que passa pela fresta da telha e me alcança
Que como criança sorri e me balança
Mas que não me anima
Mas que não me seduz
Mas que não me induz
Mas que não me fascina

O continente é negro
Como negra é minha alma
E dentro de mim o vazio
A ausência de cor
A ausência de referência
O manto escuro da noite
Escuro é o céu
E uma estrela amarela
Agora por cima do firmamento
Como um farol a milhões de anos luz
Lembra-me Cristina
E seus olhos de mel

O continente é negro
Como negro é o mar à noite
O mar azul e transparente
O mar que reflete toda luz
Agora o mar se faz em negritude
Como negros são os cabelos e os olhos de Fernanda
Tão negros que lembram o doce azul escuro e brilhante
Tão negros quanto às profundezas dos oceanos
Onde não mais penetra a luz
Como uma dríade que penetra a terra de Netuno
Mas não sabe livrar-se das suas barbas
Como as profundezas do meu cérebro
Como o emaranhado de tormentos
Como as tormentas dos grandes mares
Como a aflição da angústia
O suplício a tortura que me acompanha
Que me seguem como cabelos negros ao vento
Como o perfume final que se dissolve ao vento
Que permanece como o último olhar negro como a solidão.

3 comentários:

  1. Meu querido amigo, depois de ler este texto, me deu uma vontade de cometer um suicídio ... do seu blog, é claro (kkkk).

    Falando sério, texto profundo e depressivo total ... na moral, toma um gardenal aí e escreve algo do tipo: "Claro como a luz do sol, lalalalalala lalalalá ...."

    ResponderEliminar
  2. Será você a reencarnação de Augusto dos Anjos. Veja só um dos poemas dele que falam do mesmo tema:

    "Chove. Lá fora os lampiões escuros
    Semelham monjas a morrer... Os ventos,
    Desencadeados, vão bater, violentos,
    De encontro ás torres e de encontro aos muros.

    Saio de casa. Os passos mal seguros
    Trêmulo movo, mas meus movimentos
    Susto, diante do vulto dos conventos,
    Negro, ameaçando os séculos futuros!

    De São Francisco no plangente bronze
    Em badaladas compassadas onze
    Horas soaram... Surge agora a Lua.

    E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos
    Enquanto a chuva cai nos cemitérios
    E o vento apaga os lampiões da rua!"

    Se quiser se inspirar mais ainda, antes que o ar lhe falte e a escuridão lhe consuma, veja este site com diversas poesias de Augusto dos Anjos: http://www.biblio.com.br/conteudo/AugustodosAnjos/augustodosanjosobras.htm

    ResponderEliminar
  3. Mais outro ... seu "copista" kkkk

    Poema negro

    A Santos Neto

    Para iludir minha desgraça, estudo.
    Intimamente sei que não me iludo.
    Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
    Nos meus olhares fúnebres, carrego
    A indiferença estúpida de um cego
    E o ar indolente de um chinês idiota!

    A passagem dos séculos me assombra.
    Para onde irá correndo minha sombra
    Nesse cavalo de eletricidade?!
    Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
    — Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
    E parece-me um sonho a realidade.

    Em vão com o grito do meu peito impreco!
    Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
    Eu torço os braços numa angústia douda
    E muita vez, à meia-noite, rio
    Sinistramente, vendo o verme frio
    Que há de comer a minha carne toda!

    É a Morte — esta carnívora assanhada —
    Serpente má de língua envenenada
    Que tudo que acha no caminho, come...
    — Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
    Sai para assassinar o mundo inteiro,
    E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

    Nesta sombria análise das cousas,
    Corro. Arranco os cadáveres das lousas
    E as suas partes podres examino. . .
    Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
    Na podridão daquele embrulho hediondo
    Reconheço assombrado o meu Destino!

    Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
    Então meu desvario se renova...
    Como que, abrindo todos os jazigos,
    A Morte, em trajos pretos e amarelos,
    Levanta contra mim grandes cutelos
    E as baionetas dos dragões antigos!

    E quando vi que aquilo vinha vindo
    Eu fui caindo como um sol caindo
    De declínio em declínio; e de declínio
    Em declínio, com a gula de uma fera,
    Quis ver o que era, e quando vi o que era,
    Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

    Chegou a tua vez, oh! Natureza!
    Eu desafio agora essa grandeza,
    Perante a qual meus olhos se extasiam...
    Eu desafio, desta cova escura,
    No histerismo danado da tortura
    Todos os monstros que os teus peitos criam.

    Tu não és minha mãe, velha nefasta!
    Com o teu chicote frio de madrasta
    Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
    Por tua causa apodreci nas cruzes,
    Em que pregas os filhos que produzes
    Durante os desgraçados nove meses!

    Semeadora terrível de defuntos,
    Contra a agressão dos teus contrastes juntos
    A besta, que em mim dorme, acorda em berros
    Acorda, e após gritar a última injúria,
    Chocalha os dentes com medonha fúria
    Como se fosse o atrito de dois ferros!

    Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
    Tu mataste o meu tempo de criança
    E de segunda-feira até domingo,
    Amarrado no horror de tua rede,
    Deste-me fogo quando eu tinha sede...
    Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

    Súbito outra visão negra me espanta!
    Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
    A treva invade o obscuro orbe terrestre.
    No Vaticano, em grupos prosternados,
    Com as longas fardas rubras, os soldados
    Guardam o corpo do Divino Mestre.

    Como as estalactites da caverna,
    Cai no silêncio da Cidade Eterna
    A água da chuva em largos fios grossos...
    De Jesus Cristo resta unicamente
    Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
    Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

    Não há ninguém na estrada da Ripetta.
    Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
    As luzes funerais arquejam fracas...
    O vento entoa cânticos de morte.
    Roma estremece! Além, num rumor forte,
    Recomeça o barulho das matracas.

    A desagregação da minha idéia
    Aumenta. Como as chagas da morféa
    O medo, o desalento e o desconforto
    Paralisam-se os círculos motores.
    Na Eternidade, os ventos gemedores
    Estão dizendo que Jesus é morto!

    Não! Jesus não morreu! Vive na serra
    Da Borborema, no ar de minha terra,
    Na molécula e no átomo... Resume
    A espiritualidade da matéria
    E ele é que embala o corpo da miséria
    E faz da cloaca uma urna de perfume.

    Na agonia de tantos pesadelos
    Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
    Desperto. É tão vazia a minha vida!
    No pensamento desconexo e falho
    Trago as cartas confusas de um baralho
    E um pedaço de cera derretida!

    Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
    Eu, somente eu, com a minha dor enorme
    Os olhos ensangüento na vigília!
    E observo, enquanto o horror me corta a fala,
    O aspecto sepulcral da austera sala
    E a impassibilidade da mobília.

    Meu coração, como um cristal, se quebre
    O termômetro negue minha febre,
    Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
    E eu me converta na cegonha triste
    Que das ruínas duma casa assiste
    Ao desmoronamento de outra casa!

    Ao terminar este sentido poema
    Onde vazei a minha dor suprema
    Tenho os olhos em lágrimas imersos...
    Rola-me na cabeça o cérebro oco.
    Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
    Daqui por diante não farei mais versos.

    Augusto dos Anjos

    ResponderEliminar